Toxicodependência
é a dependência de tóxicos, drogas, narcóticos.
padrões familiares disfuncionais
Uma outra linha de investigação tem-se preocupado em responder à dos seus próprios trabalhos de observação, quer através da sistematização dos resultados encontrados por outros autores.
Um dos primeiros trabalhos de investigação importantes nesta área foi desenvolvido por um grande número de investigadores liderados por Blum, no início da década de 70, na Califórnia. Utilizando uma metodologia mista (questionário de auto-relato, entrevistas, observação directa de famílias) os autores estudaram 211 famílias de diferentes estatutos sócio-económicos. Entre outros resultados, os autores acentuaram como padrões característicos das famílias confrontadas com o problema da toxicodependência, os seguintes:
-
Alcoolismo e abuso de psicotrópicos nos pais;
- Separação precoce do meio familiar;
- Antecedentes psiquiátricos nos pais;
- Conflitos intrafamiliares em grande escala.
Identificaram ainda como factores de alto risco de consumo de droga:
- Um desentendimento entre as diferentes gerações (avós, pais, filhos);
- Problemas conjugais graves.
Ao comparar famílias disfuncionais, Santon et ai (1978) encontram nas famílias de heroinómanos padrões familiares característicos:
- Uma maior frequência, em várias gerações, de condutas de consumo (fármacos psicotrópicos e alcoolismo em particular);
- Uma expressão arcaica e directa dos conflitos intrafamiliares com alianças claras e não secretas entre o toxicómano e o progenitor mais próximo dele;
- Comportamentos parentais muito diferentes daqueles que se observam nas famílias de transacções psicóticas;
- Existência de um grupo de pares ou de uma «contra-cultura» para os quais o toxicómano se vira, por períodos, a seguir a conflitos familiares: a ilusão de independência é então maior;
- Preponderância dos temas de morte e de falecimentos prematuros e imprevistos;
- As práticas educativas das mães «simbióticas» prolongam-se por mais tempo na vida do filho apenas nas mães de psicóticos.
Este último resultado está em discordância com os resultados obtidos pela investigação de Attardo (1965), que, como vimos, encontrou laços simbióticos perduráveis até mais tarde nas mães de toxicómanos do que nas mães de psicóticos.
Com base numa vasta análise dos trabalhos de investigação publicados, quer de revisão da literatura quer de observação directa de famílias, Friesen (1983) publicou um trabalho onde se enfatiza o papel da família na etiologia e manutenção do consumo de droga. O autor refere que, de um modo geral, todos os artigos por si revistos descrevem padrões familiares significativamente diferentes nas famílias em que não há consumo de droga daquelas em que há. Friesen sistematiza essas diferenças e aponta como padrões familiares característicos das famílias de consumidores de droga os seguintes:
(
1) Relação emocional conflitual de longa data, entre o casal.
(2) Um progenitor ineficaz e/ou distante e frequentemente ausente da família. Quando presente envolve-se emocionalmente muito pouco com o elemento consumidor, excepto através de afectos negativos.
(3) Um progenitor dominado e infantilizante, imaturo do ponto de vista emocional, conflitual, ambivalente em relação ao crescimento, individuação e separação dos seus filhos, e em particular do filho consumidor.
(4) Família com uma tonalidade emocional perturbada e perturbadora que é equilibrada pelo membro consumidor.
(5) Elos intergeracionais e presença de alianças patológicas entre pais e filhos.
(6) História Familiar de consumo e/ou de encorajamento do consumo de drogas como meio de lidar com situações e sentimentos penosos.
Também Reilly, tendo por base um importante conjunto de trabalhos
ria subjacente a este disfuncionamento o que Reilly chama um erro ou falha básica no processo familiar, ao nível da individuação e da autonomia dos seus membros devido a lutos familiares não resolvidos.
Reilly sistematizou num artigo seu, publicado em 1984, os seguintes padrões disfuncionais, os quais, de acordo com os resultados da sua investigação, seriam específicos às famílias de toxicodependentes:
Caos Normativo: Ausência de clareza e de consistência nas normas parentais e na definição de limites. Os pais entram frequentemente em conflito sobre o modo de educar e os tipos de disciplina a utilizar.
Atmosfera familiar confusa e conflitual: com mensagens contraditórias que levam o adolescente a «gritar por ajuda» através de um processo de escalada progressiva.
Negação da Realidade: Os pais defendem-se da realidade (o comportamento do filho) através da sua negação. Submetem-se a um processo de «cegueira» que os impede de ver o comportamento do filho.
Anestesia Grupal: Estas famílias só vibram e manifestam sinais de vida quando em conflito. A comunicação é predominantemente negativa (crítica, desconsideração, gritos,...) e a atenção só é obtida pela criação de uma crise; os «bons» comportamentos são ignorados e os comportamentos perturbadores activam e estimulam a família.
Raiva/Ódio acumulados e escondidos: O sistema familiar bloqueia e reprime o ódio. Todos os membros da família sofreram privação do amor e da atenção, o que criou um reservatório enorme de ódio acumulado ao longo do tempo. A «expressão» directa deste ódio é a inibição, devida ao medo de perdas futuras de amor e afecto e ao medo da perda de controlo se o ódio for revelado. O comportamento de consumo de droga oferece oportunidades desadaptadas de descarregar o ódio, dirigido contra os pais, contra si próprio, contra as pessoas exteriores à família.
Os membros da família estão ligados por relações de dependência hostis. Há uma desvalorização frequente de tudo o que é exterior à família.
Expectativas Irrealistas: Os pais têm frequentemente expectativas irrealistas em relação aos filhos. Por vezes chegam ao ponto de modelar a vida dos filhos, e o amor é condicionado pelo sucesso. O comportamento de consumo de droga exprime rebeldia em relação a essas expectativas e uma explicação para o fracasso.
Noutros casos os pais esperam muito pouco dos filhos e o comportamento de consumo de droga exprime esta imagem criada.
Partindo de uma análise diferente - o estabelecimento de um continuam familiar indo da «família ideal», num extremo, para a «família disfuncional», no outro extremo - Murphy (1984) traz um contributo à problemática que nos interessa, ao descrever dois tipos básicos de famílias disfuncionais e onde, segundo ele, haveria uma forte probabilidade de ocorrência do problema do consumo de droga.
Murphy designou esses dois tipos de sistemas familiares por:
- Sistema familiar dominante/submisso;
- Sistema familiar conflitual crónico.
Descreveu-os da seguinte forma:
No sistema familiar dominante/submisso: O controlo é assumido por um dos pais; o outro pai assume um papel passivo. O pai submisso pode reagir ao poder respondendo com comportamentos passivo-agressivos ou como suporte do comportamento rebelde do filho.
As crianças podem ser inibidas, pouco afectuosas; a proximidade é mínima. A resolução de problemas fica a cargo do pai dominante sem preocupação pelos desejos dos outros membros.
O humor familiar é caracterizado por depressão. Há no entanto pouca fricção entre os membros devido à complementaridade dos papéis.
No sistema familiar conflitual crónico: ocorrência de conflitos permanentes entre os pais pelo poder. Cada decisão, por mais pequena que seja, transforma-se numa crise e luta pelo controlo. Os membros relacionam-se uns com os outros através de comportamentos manipulatórios. Quando a disfunção familiar é severa, o sistema familiar é totalmente caótico. Os membros percebem o meio familiar como perigoso e hostil. A comunicação é mínima, os problemas são negados e o humor familiar é cínico.