Toxicodependência

é a dependência de tóxicos, drogas, narcóticos.

funções da toxicodependência

Ganger & Shugart, pioneiros na introdução das abordagens familiares sistémicas no campo do tratamento da toxicodependência, referiam-se já, em 1966, à toxicodependência como uma «doença familiogénica» e afirmavam mesmo que o tratamento não podia ser conduzido com sucesso fora do contexto da unidade familiar. Também Rosenberg, em 1971, afirmava que «a dependência da droga não é só uma manifestação de uma perturbação adolescente da personalidade mas é também sintomática de um problema familiar mais vasto».

Em 1978, um grupo de terapeutas familiares e investigadores liderados por Stanton publicou um artigo denominado: «A dependência à heroína enquanto Fenómeno Familiar: um novo modelo conceptual», tendo por suporte as teorias sistémicas sobre a família, que vem a revelar-se de uma enorme importância para a investigação nesta área.

Depois de frisar o reconhecimento que se operou nos últimos anos da importância da família na génese, manutenção e no tratamento de problemas da droga, Stanton (1979) afirma que «as variáveis familiares desempenham um papel predominante na sintomatologia do toxicómano» (op. c/r.,p. 100).
Ao elaborar o que chama «um novo modelo» Stanton critica o modelo anterior, em que: (1) «a família é vista como um factor mais ou menos inerte que, no máximo, pode exercer uma acção ulterior de "stress" sobre o membro sintomático» (op. cit.9 p. 100); (2) a importância da família na manutenção do sintoma é desvalorizada; e em que (3) geralmente se discute a família em termos de díades relacionais ou em termos das características individuais dos membros.
Na sua perspectiva, e esta seria a essência desse novo modelo conceptual, a família deve ser entendida como um sistema composto por membros em interacção, o sintoma como um comportamento particular que funciona como mecanismo homeostático regulador das transacções familiares e que deve mudar-se o sistema familiar para que o sintoma mude também.
Stanton fundamenta a sua perspectiva basicamente nos quadros de referência teóricos produzidos por Minuchin e Haley e que estão na base dos modelos de terapia familiar estrutural e estratégica.
«Esta óptica é radicalmente diferente da teoria centrada sobre o indivíduo, o intrapsíquico baseada no conceito linear de causa-efeito»

O processo de desenvolvimento psicológico mais implicado na génese da toxicodependência é o Processo de Separação-Individuação - teorizado por alguns autores, com maior relevância para as contribuições dos psicanalistas Margaret Mahler e Peter Bios - e a relação entre a toxicodependência e as vicissitudes do processo tem sido aprofundada por outros autores, nomeadamente Weidman (1983), Spotts & Shoutz (1985), que retomaremos posteriormente.
Stanton coloca assim o problema: «O início da adolescência pode gerar em alguns pais o pânico de perderem o filho. A família bloqueia-se neste estádio de desenvolvimento e estabiliza-se num processo crónico e repetitivo centrado sobre a individuação, a separação e a saída do paciente designado».

A função de estabilização


Stanton e os seus colaboradores formulam então a hipótese de que a dependência à droga possa funcionar como um mecanismo estabilizador quando a balança homeostática familiar entra em ruptura.
Na realidade, a sua experiência com as famílias de toxicodependentes leva-os a observar um mecanismo frequente nestas famílias - que nós próprios tivemos ocasião de observar e com que nos deparámos frequentemente no nosso trabalho clínico junto de toxicodependentes - e que Stanton & Todd descrevem, num artigo publicado em 1982, da seguinte forma: «Nós começámos a reparar que quando o toxicodependente começava a ter sucesso - seja no emprego, num programa de tratamento, ou outro - ele estava num certo sentido a conseguir deixar a família, quer directamente quer desenvolvendo mais autonomia em geral. O facto interessante é que por esta mesma altura uma qualquer espécie de crise ocorria quase inevitavelmente na família, ou porque os pais tinham uma disputa, ou se separavam, ou um dos pais aparecia com sintomas ou ainda um dos irmãos tornava-se um problema. No pico desta situação o toxicodependente revertia a situação aparecendo com falhas comportamentais, e os outros problemas da família dissipavam-se. Observámos este padrão tão frequentemente que se nos tornou claro que não só o toxicodependente temia a separação da família como também a família temia separar-se dele» (op. cit., p. 12).
Este contexto interactivo revelaria a função protectora ou estabilizadora que o sintoma do abuso de droga estaria a desempenhar na homeosem famílias de alcoólicos. Os estudos de Steinglass no domínio do alcoolismo levam-no a concluir que o abuso de álcool produz interacções previsíveis que reduzem as incertezas familiares quanto ao funcionamento interno da família; o desaparecimento do sintoma, por seu turno, embora desejado, acarreta disrupções familiares.
Numerosos outros estudos, além dos realizados pelos autores citados, têm vindo a dar fundamento à hipótese da função homeostática, protectora e estabilizadora do sistema familiar, do sintoma toxicodependência (Weidman, 1983; Reilly, 1975, 1984;Levine, 1985).
Howe (1974), Stanton (1979) e Reilly (1984) afirmam que a função da toxicodependência é proteger o laço marital: os conflitos no casal são evitados centrando-se a atenção no comportamento incompetente e doente do filho toxicodependente.
Reilly (1984) afirma mesmo que o abuso de droga «desempenha um papel-chave na regulação da homeostase marital, aumentando ou diminuindo a distância relacional» (op. cit., p. 385), funcionando assim como um termostato equilibrador da distância emocional dos pais.
O autor põe, como já referimos anteriormente, a tónica na ocorrência de processos de luto não resolvidos nos pais dos adolescentes toxicodependentes. Na sua perspectiva, estes pais, não tendo resolvido adequadamente a perda dos seus próprios pais, tornam-se incapazes de tolerar a perda dos seus próprios filhos. A ansiedade de separação, a fusão emocional e as identificações confusas caracterizam estas famílias.
O toxicodependente desempenharia então, segundo a perspectiva de Reilly, o papel de «mau-da-fita», que reincarna os maus objectos parentais introjectados.
A função sistémica do sintoma é aqui equacionada nestes termos: «Enquanto o comportamento de abuso de droga servir para manter a homeostase familiar, para manter as relações tal como elas são, para assegurar a conservação do objecto, para defesa contra as perdas ou reconhecimento da perda... este abuso de droga é antes de tudo o mais e principalmente um sintoma familiar» (Reilly, 1975, p. 160).

A função de pseudo-individuação


Além dessa função, a manutenção do consumo de droga pode ainda desempenhar funções importantes para o próprio toxicodependente: dar-Ihe a ilusão de se individuar e autonomizar dos pais, mantendo-se simulnegativos em relação aos pais não sendo ao mesmo tempo responsabilizado, já que esse comportamento se deveria aos efeitos da droga e não a sentimentos genuínos do consumidor (Stanton & Todd, 1982).
Segundo Weidman (1983), o consumidor adolescente de droga é alguém que desde a infância nunca se separou dos pais, mantendo uma relação dependente e simbiótica, não tendo sido nunca encorajada a sua individuação na família. Com a adolescência e a intensificação da problemática da separação dos pais o sistema familiar é confrontado com a necessidade da mudança ou com a manutenção do statu quo. Neste contexto, o comportamento de consumo de droga, envolvendo pais e adolescentes, pode ser considerado como uma tentativa de impedir os processos de separação e manter a simbiose. Esta hipótese é tanto mais credível quanto as experiências de consumo de droga propiciam ao adolescente estados semelhantes aos estados infantis autistas e omnipotentes.

A função de comunicação


Ainda neste campo, o da análise das diversas funções sistémicas que o comportamento de consumo de droga pode desempenhar no funcionamento familiar, é de sublinhar a perspectiva de Ausloos.
Ausloos (1981) coloca a tónica na comunicação entre os membros da família e vê no sintoma droga uma linguagem, uma modalidade de comunicação. Neste sentido, e segundo a sua perspectiva, seria importante interrogar o sintoma ao nível do seu valor semântico (que sentido tem) ao nível do seu valor sintáctico (a que regras, mantidas muitas vezes secretas nestas famílias, obedece o sistema familiar quando o comportamento toxicodependente é posto em jogo) e ao nível do seu valor pragmático (o que obtém o adolescente com o seu comportamento ou qual a utilidade dele para cada um dos membros da família).
A rigidez do sistema familiar é aliás posto claramente em evidência num importante estudo conduzido por Stanton e seus colaboradores (1979). O estudo, levado a cabo de 1974 a 1978, trabalha com uma amostra de famílias de heroinómanos (apenas do sexo masculino) emparelhada com famílias controlo e utiliza metodologia mista (observação das interacções familiares em setting clínico e experimental e questionários de auto-relato). Os autores constatam que as famílias de heroinómanos apresentam, mais do que as outras, papéis familiares rígidos e estereotipados e padrões de comunicação mais rígidos. A mãe apareceu neste estudo ocupando uma posição mais central: ela tende a dominar o discurso verbal enquanto o pai fracassa nas tentativas de conversação diádica e de intervenção nas discussões.

Esta força homeostática mantém e sustém um conjunto de regras encobertas que governam a forma como os subsistemas familiares interagem (Minuchin, 1974).