Toxicodependência

é a dependência de tóxicos, drogas, narcóticos.

A personalidade dos pais

Um outro conjunto de trabalhos tem-se debruçado mais especificamente sobre as características psicológicas quer da mãe quer do pai do consumidor, quer ainda sobre o perfil de relação entre o casal.
Um dos primeiros trabalhos em que se descrevem as características dos pais tendo por base a observação directa é o de Hirsch, que em 1961 advogava já a necessidade de submeter a terapia de grupo os pais de adolescentes consumidores. Na base da sua própria experiência clínica com pais de consumidores de droga, Hirsch sugere que a «escolha do sintoma» nos filhos está sob o efeito dos comportamentos parentais. Os pais dos consumidores mostram, segundo a sua observação, dificuldade em compreender a «linguagem dos afectos», sentem ter um casamento infeliz, a mãe mostra-se ambivalente para com o seu filho consumidor e o pai é predominantemente passivo.

Welpton (1968) encontra nas famílias de consumidores de LSD um padrão familiar comum: um excessivo envolvimento entre a mãe e o filho, que o autor afirma ser para compensar uma relação pobre entre o casal. O pai seria visto pelo filho como um rival que desapontou a mãe.
Num estudo datado de 1970, Wellish et al investigam as percepções que toxicodependentes têm dos seus próprios pais através de entrevistas e das histórias contadas por 1000 consumidores de heroína. As raparigas descrevem frequentemente o pai como inapto ou alcoólico e a mãe como uma figura que pode manipular o pai ou estar em competição com elas face ao pai. Os rapazes descrevem o pai como ausente, distante emocionalmente e passivo-agressivo e a mãe como superprotectora e muito dependente dos filhos.

Na base de uma extensa revisão dos estudos feitos, Seldin (1972) refere que a mãe do consumidor é frequentemente percebida como a figura dominante, conflituosa, imatura emocionalmente, muito indulgente e ambivalente quanto ao papel a desempenhar na família. A relação entre a mãe e o filho é descrita como sendo altamente interdependente. Quanto ao pai ele aparece nos estudos revistos por Seldin como uma figura ausente, emocional ou fisicamente. Verifica-se também que, quando casado, o consumidor tem tendência para repetir a dinâmica relacional da sua família de origem.
Sublinhamos que a metodologia usada na maior parte destes estudos permite obter dados sobre a dinâmica familiar tal como ela é percepcionada pelo consumidor. Se por um lado este facto não retira validade científica aos resultados - já que, como é sabido, as percepções são indicadores extremamente sensíveis e válidos - por outro lado não nos dá indicações sobre a dinâmica familiar tal como ela é percepcionada pelos pais e pelos restantes membros da família, não permitindo» portanto uma avaliação dos diferentes intervenientes. A inexistência por vezes de grupos de controlo não permite também concluir se estes perfis relacionais são específicos das famílias dos consumidores.
No entanto, estes resultados têm sido confirmados por outros estudos, mais rigorosos do ponto de vista metodológico, usando grupos de controlo emparelhados, alguns dos quais iremos referir.
Kurtzberg et al (1966) confirmam uma relação de forte dependência às mães, mais nos heroinómanos do que nos sujeitos controlo. Torda (1968) encontra também no grupo experimental, mais do que no controlo, uma relação extremamente próxima entre a mãe e o filho heroinómano, descrito pela mãe como o filho preferido e mais fácil de educar.

Utilizando uma amostra emparelhada de vinte tríades familiares (pai, mãe e filho), Mead & Campbell (1972) verificam que as tríades do grupo ^Ynprimental evitam mais do que as outras a discuissão sobre o conflito e dos seus membros e outras sem problema de consumo, encontra nas primeiras mais problemas conjugais graves.

Também a investigação realizada por Attardo (1965) merece a nossa atenção. Através de uma escala avaliando o grau de separação-individuação (tendo por base os conceitos de Margaret Mahler), o autor avaliou retrospectivamente a «propensão para a relação simbiótica» em mães de toxicómanos, de esquizofrénicos e de adolescentes normais, em diferentes estádios de desenvolvimento dos seus filhos. O autor verificou que enquanto as «necessidades simbióticas» das mães dos adolescentes normais diminuíam progressivamente, as dos outros dois grupos mantinham-se significativamente maiores. Relativamente à idade compreendida entre os 11 e os 16 anos, eram as mães dos toxicómanos as que mantinham com os seus filhos os laços mais simbióticos. Estas mães teriam portanto a necessidade de prolongar por mais tempo relações fusionais com os seus filhos.

Embora não se fundamentando directamente nas teorias sistémicas sobre a família nem utilizando metodologias de avaliação familiar oriundas dessas mesmas teorias, estes autores sublinham a necessidade de comprender o sintoma do consumo individual de droga no contexto do sistema familiar.