A Família

A toxicodependência é um fenómeno multideterminado por factores de natureza diversa que se conjugam e criam condições para o seu aparecimento e manutenção, e por essa mesma razão tem sido objecto de investigação diversificada e sistemática.

Apoiando-se e dando suporte a modelos teóricos explicativos, de orientação muito diversa, a investigação tem sido fundamentalmente orientada para o estudo do fenómeno nos adolescentes e jovens adultos, e na maior parte dos casos a sua perspectiva integra as teorias sobre o desenvolvimento psicológico do adolescente.

Com o objectivo de encontrar áreas de convergência e pôr em evidência os resultados mais significativos, alguns autores procederam a importantes trabalhos de revisão da literatura científica produzida. Uma área de consenso indiscutível é a constatação do papel crucial desempenhado pelos factores familiares no desencadear e na manutenção da toxicodependência. Com efeito, nos mais importantes trabalhos de revisão feitos nas últimas afirma-se mesmo que são os factores familiares os que desempenham o papel primordial na génese e desenvolvimento da toxicodependência.
Assim sendo, importa perguntar: qual o estado actual de conhecimentos a que tem conduzido a investigação sobre a relação entre o uso/abuso de droga e a dinâmica familiar?
Convirá desde já dizer que o estudo da família de origem (pais, avós, irmãos) do consumidor de droga tem sido privilegiado. Raramente enconda sua idade, vive com os seus pais, e a maioria conserva laços estreitos com a sua família de origem.

Alguns autores (Noone & Reddig, 1976) vão mesmo ao ponto de afirmar que a dependência psicológica da família de origem é préyia à dependência das drogas: «Qualquer que seja a idade e o facto de o toxicómano viver ou não com a família de origem, as condutas toxicómanas estão em relação directa com a dinâmica familiar e com a alternativa da separação e da individuação».
A relação mãe-filho (rapaz) é mais vezes descrita, mas é provável que este facto se deva à sobre-representação dos rapazes nas amostras de consumidores, como o comprovam os dados epidemiológicos.

Constatado o peso primordial dos factores familiares na problemática da toxicodependência, interessa agora perguntar: o que diferencia estas famílias confrontadas com o problema da toxicodependência das outras famílias que não experienciam esse problema em nenhum dos seus membros? No campo das ciências psicológicas constatamos que cada vez mais esta questão tem sido o alvo preferencial da investigação. Apesar de alguns autores afirmarem que não se pode ainda falar de interacções familiares específicas a estas famílias, é no entanto possível identificar alguns padrões, algumas tendências mais comuns a essas famílias e descrevê-los.
Nesse sentido, começaremos por organizar e integrar a informação de que dispomos no sentido de encontrar as evidências mais consentâneas, as linhas de força que emergem do conhecimento actual.