Toxicodependência

é a dependência de tóxicos, drogas, narcóticos.

A distorção do anel familiar

Um dos aspectos mais relevantes postos em evidência pela investigação científica tem a ver com a descoberta da existência nas famílias confrontadas com a toxicodependência de carências de cuidados parentais muito precocemente.
Com efeito, alguns autores (Harbin & Maziar, 1975), na revisão que fazem de uma vasta literatura científica editada entre 1966 e 1973, assinalam a incidência maior de carências parentais precoces nessas famílias e esta evidência tem vindo a ser confirmada pela investigação posterior, como vamos verificar seguidamente.

A perda de um ou mais elementos da família, na sequência de morte ou de separação física, encontra-se frequentemente na história da vida do consumidor (Amaral Dias, 1980; Hagglund & Pylkkanen, 1977; Rosch, 1988). Este último investigador pôs em evidência uma distorção do anel familiar, devida à separação dos pais, mais importante do que na população em geral. Nós próprios (Fleming et al. 1981a. 1988) em estudos; reaeram também aqueles que provinham, mais do que os outros que não consumiam, de famílias em que um ou ambos os pais estavam ausentes (por morte ou separação).
A perda de um progenitor, acontecimento dramático e devastador do ponto de vista do equilibrio afectivo e emocional do ser humano, com o que implica de disfuncionalidade do agregado familiar, de carências afectivas dificilmente compensadas e de ausência de modelos identificatórios, inscreve-se inevitavelmente num quadro de depressão, declarada ou oculta. O luto que a acontecer seria reparador é muitas vezes impossível por demasiado doloroso ou adiado... Frequentemente perdida no tempo, mas sempre actuante, a dor da perda pode então ser anestesiada ou aliviada e inevitavelmente mascarada pelo recurso à droga. A depressão, que o próprio toxicodependente muitas vezes ignora ou esconde sob a aparência de uma falsa indiferença ou apatia emocional, dá então lugar ao diagnóstico de toxicodependência, culpabilizante para o próprio e para a família e fonte de estigma social.
Esta leitura, nem sempre aceite pelos especialistas no tratamento da toxicodependência, encontra suporte empírico. Com efeito, sabe-se, pelo que verificou Duncan (1978), que o início do consumo se deu frequentemente após a ocorrência de acontecimentos dramáticos, com prevalência daqueles em que se verifica uma perda (separação dos pais, hospitalização ou perda de emprego num dos pais), e a escalada na toxicodependência foi precedida por um número elevado e não habitual de perdas por morte nas famílias observadas por Coleman & Stanton (1978) e por Stanton (1977).
Também entre nós, o autor (Amaral Dias, 1980) de uma investigação realizada junto de consumidores de droga refere que o que apareceu no seu estudo como mais decisivo na passagem do consumo de cannabis ao consumo de narcóticos foi a distorsão do anel familiar do consumidor e mais precisamente a ausência do pai por morte ou separação.

Os resultados obtidos por uma outra equipa de investigadores (Coleman et al, 1986) dão consistência à importância do factor de perda familiar na vivência do consumidor de droga. Eles investigam no seu trabalho o papel da morte, perda e separação no ciclo de vida em famílias de heroinómanos, doentes psiquiátricos e estudantes universitários. Constatam que os toxicodependentes - em relação aos não toxicodependentes - foram mais vezes separados da sua família durante a infância e a adolescência; nas suas vidas, mais do que nos outros, os toxicodependentes vivenciaram separados a crescer num meio em que um ou ambos os pais estão definitivamente ausentes ou estão ausentes a maior parte do tempo (Hartmann, 1969; Braucht et al, 1973; Bratter, 1975; Amaral Dias, 1980).
Ora, na opinião de alguns investigadores (Fort, 1969, Torda, 1968) a ausência do pai foi particularmente prejudicial para os filhos rapazes que mais tarde se tornaram consumidores e Chein et al (1964) verificaram que, mesmo estando fisicamente presentes, os pais de muitos consumidores eram sentidos como emocionalmente ausentes.
Em qualquer dos casos, é de admitir a existência de problemas de identificação nos filhos. A este propósito, Bergeret et al (1980) sublinham a ausência de uma imagem paternal identificatória, a qual resultaria por vezes da ausência física do pai, outras vezes da carência (ou excesso) de autoridade paternal, sendo o pai vivido como agressor impotente.

Verificou-se ainda, em apoio destes dados, que os adolescentes (numa amostra não clínica) que vivem sozinhos têm um consumo de droga superior àqueles que vivem com os pais (Miller & Cisin, 1980, in Chassin, 1984; Blum et al, 1972); os adolescentes que vivem com ambos os pais têm menos tendência a consumir droga do que aqueles que vivem apenas com um deles (Amoateng & Bahr, 1986).
Mas, curiosamente, a perda de um familiar veio a encontrar-se também na história de vida dos pais dos consumidores. Reilly (1975), tendo por base os seus próprios trabalhos de observação directa de famílias e um trabalho de recolha e revisão de bibliografia, refere que frequentemente ambos os pais sofreram profundas perdas emocionais nas suas famílias de origem - perda física do pai ou da mãe (por morte, divórcio ou fuga) ou perda psicológica (por rejeição parental, negligência, hostilidade, doença ou outra). O autor afirma ainda que na maioria dos casos destas famílias se constata que os sentimentos e conflitos associados à perda nunca foram total e adequadamente resolvidos e que as crianças são por vezes tratadas como «novas edições» dos pais perdidos e por essa razão parentificadas.
Sem pretender comentar exaustivamente estes dados, apenas relembro a clarividência de um eminente psicanalista, Winnicott, que numa obra publicada em 1956 e partindo de um outro ângulo de observação da realidade - a observação clínica dada pela psicanálise - viu na base das tendências antissociais dos adolescentes um problema de privação afectiva, uma carência de cuidados parentais.
Na ausência física ou psicológica de figuras parentais, estas não se

A toxicodependência encontra sem dúvida aí um terreno de fragilidade psíquica onde pode desenvolver-se. Esta fragilidade, não tendo sido reparada pela vida, cria condições propícias para a apetência de «soluções» (o efeito dos tóxicos), meios que embora sendo artificiais estão disponíveis no mercado e dão ao sujeito fragilizado a ilusão de uma ajuda que os alivia de um sofrimento nunca transformado, porque nunca visto e compreendido.